quarta-feira, 10 de julho de 2019


"Sinto um nó na minha garganta
A voz treme ao sair
Debaixo da cama os monstros me impedem de dormir
Me sinto só desde criança
Mesmo com gente ao meu redor
Sempre lutei por liberdade, mas ser livre me fez só

Eu tenho fogo no olhar
De pés descalços vou à caça
Pra encontrar o meu lugar
Eu abraço a escuridão
Que sempre se fez o meu lar

Agora eu corro com meus lobos
Danço ao redor do fogo
Bem nos olhos vejo os monstros
Que insistem em me encarar
Sempre me acharam louco
Por querer ser mais um pouco
Sei que eu tenho os meus monstros
Mas continuo a caminhar


Vou mostrar todas as coisas
Que vocês não deram valor
Que nunca esperaram ver
Desse menino do interior


É tão claro agora
Eu queria poder dizer
Pra aquela criança
Que ainda não vê
É tão claro agora
Eu sei que vai doer
Mas isso é necessário
Pra quem você vai ser"


-Jão

quinta-feira, 28 de março de 2019

O meu pai tinha apenas a "4ª classe", lembro-me que mal sabia escrever e do pouco que sabia a letra não se entendia. Fora de casa parecia um homem sisudo e cru, assim que entrava da porta de casa para dentro a cara reluzia com o seu sorriso de orelha a orelha. Fazia uma fogueira enquanto a minha mãe fazia o jantar, pegava-me ao colo e eu ficava a perguntar-lhe o quanto ele gostava de mim, o quanto ele gostava da minha mãe e "obrigava-os" a dar um beijo. Tinha 16 anos e a nossa rotina ainda era esta antes de jantar, todos os dias o mesmo.... Mimada? Talvez. Mas éramos tão felizes e pelo menos dissemos uns ao outros que gostávamos uns dos outros.
O meu pai era agricultor e cantoneiro. Levantava-se todos os dias as 5h da manhã para a minha mãe dormir mais uma hora. Lembro-me de ele ganhar 495€... O meu pai não sabia escrever poemas, nunca leu um decreto-lei, nem sequer sabia o significado de "hello", mas sabia colar os nossos chinelos descolados, cortava lenha, não tinha carta de carro mas tinha de trator e conduzia-o como ninguém, tinha mil e uma máquinas e sabia mexer nelas todas, fez um lago para os patos sozinho, fazia capoeiras para as galinhas, sozinho construiu um segundo teto de madeira na nossa casa porque o que tínhamos deixava entrar frio. 
Os meus olhos ficam razos de lágrimas quando ouço alguém dizer "o teu pai era um artista" era sim, e faz-nos uma falta incalculável.

Porque pai, agora quem troca as lâmpadas sou eu, temos de comprar lenha, a mãe acorda as 5h da manhã, a raposa entra na capoeira porque já está velha e não temos quem a componha, os fechos das portas partiram e não há quem os troque então fechamos tudo com cordeis, vendemos as máquinas e só ficámos com o trator, mas sabes bem que a nossa macha-atrás é um desastre, desistimos dos patos e dos coelhos, porque só tu é que sabias cozinhar o coelho... 
Ainda tenho o teu número gravado no meu telemóvel, ligava-te para fazeres a fogueira antes de ires ajudar a mãe depois de chegares do trabalho para quando eu chegasse a casa ir logo tomar banho, agora se ligar dizem que o número não está atribuido. 
Não há um dia em que não pense em ti, que não sinta a tua falta. Perdi-te demasiado cedo. Não estiveste no meu baile de finalistas, não estiveste quando entrei na universidade, no meu 18 a contabilidade, na minha benção de finalistas, não viste o meu diploma, não me vais levar ao altar nem pegar nos teus netos ao colo. 
Amo-te e choro-te todos os dias, foste um senhor. 
Olha por nós.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

À minha mãe



Lembro-me de a nossa relação ser só de te ver à noite, de quando te vinhas deitar comigo até eu adormecer… Dos meus quase 23 anos só me lembro de ti a trabalhar, mesmo quando o corpo suplicava por descanso lá te levantavas, mais uma vez, as 6h da manhã. É-o assim há mais de 30 anos, aliás, agora que o pai nos deixou às duas ainda te levantas mais cedo, sem um único dia de férias, sem um domingo para ficar na cama até mais tarde, sabes lá o que é dormir até as 9h da manhã… Tudo o que hoje temo foi conquistado por ti, pela tua força de vontade e querer vencer.
Quando perdemos o pai (a sua presença física), lembro-me que durante uma semana quase não falamos, chegavas a casa sentavas-te e esperavas que chegasse de novo a hora de ir trabalhar. Lembro-me do quanto choravas e o quanto dizias que não era justo. Não foi justo, não é justo. Se ele hoje aqui estivesse connosco tu serias, definitivamente mais feliz, o pai era o amor da tua vida, se ele cá estivesse seriamos as duas mais felizes, ele faz-nos tanta falta.
Quando acordo de madrugada e supostamente já terás saído de casa, confirmo-o sempre, acho que por ter receio de te perder como perdi o pai, que não tenhas acordado … Quando durmo contigo, não consigo dormir uma noite completa sem verificar inúmeras vezes se estás a respirar … Quando estamos as duas a aquecer-nos ao lume, fico a admirar-te, como cada ruga tua conta uma história, como és forte e como te sacrificaste por mim para eu conseguir conquistar tudo o que tenho. Obrigada.
Tens uma família linda, os teus irmãos adoram-te e para eles és como uma mãe, criaste-os a todos, deste-lhes amor, ainda dás. És o ponto de abrigo deles. Os teus sobrinhos vêm em ti a melhor tia do mundo, a tia que não lhes diz “não”, a tia que os defende, a tia divertida, a tia cheia de força. Todos nos orgulhamos de ti, todos te amamos.
Obrigada por seres um exemplo.